Publicado em 11 de setembro de 2026
Dados da CNC mostram que famílias de menor renda enfrentam a maior pressão: 38,8% estão com contas atrasadas e 18,3% dizem não ter condições de pagar
Por Carlos André Moitas
Jornalista
O endividamento das famílias brasileiras permaneceu em 82% em agosto de 2026, mantendo o maior nível da série histórica pelo sétimo mês consecutivo. Ao mesmo tempo, a parcela de famílias com contas em atraso avançou para 29,9%.
Os números fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O levantamento mostra que o problema não está distribuído de maneira uniforme entre os brasileiros: as famílias de menor renda enfrentam uma situação significativamente mais difícil.
Os números que chamam atenção
82% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida.
29,9% estão com contas ou parcelas em atraso.
12,5% afirmam não ter condições de pagar as dívidas atrasadas.
19,2% comprometem mais da metade da renda com dívidas.
Endividamento não significa necessariamente inadimplência
Um dos pontos mais importantes para entender os números da pesquisa é diferenciar endividamento de inadimplência.
Uma família pode estar endividada e continuar pagando suas parcelas normalmente. Uma compra parcelada no cartão de crédito, um financiamento de veículo ou um empréstimo em dia, por exemplo, entram na estatística de endividamento.
Já a inadimplência ocorre quando uma dívida deixa de ser paga no prazo estabelecido. Por isso, os 82% de famílias endividadas não significam que 82% estejam com o nome negativado ou com pagamentos atrasados.
endividamento significa ter compromissos financeiros. Inadimplência significa ter compromissos financeiros em atraso.
Famílias de menor renda concentram a maior pressão
A situação se torna mais preocupante entre as famílias que recebem até três salários mínimos.
Nessa faixa de renda, o percentual de famílias com contas atrasadas subiu de 38,5% para 38,8% em agosto.
O levantamento também mostra que 85,1% das famílias desse grupo declararam possuir algum tipo de dívida.
Ainda mais preocupante é a parcela que afirma não ter condições de quitar os débitos. O percentual chegou a 18,3%, alta de 0,5 ponto percentual.
Os dados indicam que o crédito continua exercendo papel importante na manutenção do consumo das famílias de menor renda, mas também revela o limite dessa estratégia: quando uma parcela cada vez maior da renda é direcionada para dívidas, sobra menos dinheiro para alimentação, moradia, transporte e outras despesas essenciais.
Cartão de crédito continua no centro do problema
O cartão de crédito permanece como uma das principais modalidades de dívida entre as famílias brasileiras.
A facilidade para parcelar compras e antecipar o consumo ajuda a explicar sua forte presença no orçamento doméstico. O problema aparece quando a fatura deixa de ser integralmente paga e o consumidor precisa recorrer ao crédito rotativo ou a novas renegociações.
Nesse cenário, uma dívida pode deixar de ser apenas uma ferramenta de financiamento temporário e passar a consumir uma parcela crescente da renda mensal.
Quase uma em cada cinco famílias compromete mais da metade da renda
Outro dado relevante da pesquisa é o percentual de famílias que comprometem uma parcela muito elevada da renda com o pagamento de dívidas.
Em agosto, 19,2% das famílias declararam comprometer mais da metade da renda com dívidas. É o maior percentual registrado desde março.
Apesar disso, o comprometimento médio geral da renda permaneceu em 29,5%.
A diferença entre esses indicadores mostra que o problema é particularmente intenso para uma parcela dos consumidores: enquanto a média nacional permanece próxima de 30%, quase um quinto das famílias já direciona mais de metade da renda para compromissos financeiros.
Inadimplência avança enquanto tempo de atraso aumenta
O cenário também aparece no tempo médio necessário para regularizar os pagamentos. Em agosto, o período médio de atraso chegou a 65 dias.
Segundo a pesquisa, 29,1% dos consumidores inadimplentes tinham contas atrasadas entre 30 e 90 dias.
O aumento do período de atraso é um sinal de pressão sobre o orçamento porque indica que parte das famílias está demorando mais para recuperar a capacidade de pagamento.
Situação melhora entre algumas faixas de renda
O avanço da inadimplência não ocorreu de forma uniforme em todas as faixas de renda. Entre famílias que recebem de três a cinco salários mínimos, o endividamento caiu para 83,7% e a inadimplência ficou em 28%.
Na faixa entre cinco e dez salários mínimos, o endividamento caiu para 77,2%, enquanto a inadimplência recuou para 20,3%.
Entre as famílias com renda superior a dez salários mínimos, o endividamento subiu para 72,3%, mas a inadimplência caiu para 14,9%.
A diferença entre as faixas reforça um dos principais pontos do levantamento: o impacto das dívidas é maior entre as famílias com menor capacidade financeira para absorver juros, atrasos e imprevistos.
O que os dados revelam sobre a economia brasileira
O recorde de endividamento ocorre mesmo em um momento em que o mercado de trabalho apresenta indicadores mais positivos do que em períodos anteriores.
Isso mostra que emprego e renda, embora fundamentais, não são suficientes para eliminar a pressão financeira quando as famílias já carregam um estoque elevado de compromissos.
Análise recente do FGV Ibre também apontou que o elevado endividamento, a inadimplência e o custo do crédito ajudam a explicar por que a percepção econômica dos brasileiros não acompanha integralmente a melhora de alguns indicadores de emprego e renda. :contentReference[oaicite:3]{index=3}
O Banco Central, por sua vez, vem avaliando medidas para reduzir riscos associados às modalidades de crédito mais caras, especialmente cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia. :contentReference[oaicite:4]{index=4}
O alerta para os próximos meses
A combinação de endividamento recorde, aumento da inadimplência e maior comprometimento da renda coloca o orçamento das famílias sob pressão.
Para a CNC, a tendência é de aumento das contas em atraso durante o próximo trimestre, especialmente diante do aumento do tempo médio de atraso e do comprometimento da renda.
o maior risco não está apenas no número de famílias que possuem dívidas, mas na parcela da população que começa a perder a capacidade de pagar essas dívidas sem comprometer despesas essenciais.
Conclusão
Os dados de agosto mostram um quadro de forte endividamento das famílias brasileiras. O índice de 82% permanece em nível recorde, enquanto a inadimplência chegou a 29,9%.
Mais do que o número absoluto, chama atenção a concentração do problema entre os consumidores de menor renda, justamente aqueles que possuem menos margem para absorver aumentos de juros, despesas inesperadas ou perda temporária de renda.
O cenário reforça a importância de acompanhar não apenas a quantidade de crédito disponível, mas também seu custo, o comprometimento da renda e a capacidade efetiva das famílias de manter os pagamentos em dia.
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O Te Politizei acompanha os principais indicadores da economia brasileira, seus impactos sobre a população e as decisões que podem afetar o bolso dos brasileiros.
Fontes
- Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
- Gazeta do Povo — dados da Peic referentes a agosto de 2026.
- Diário do Comércio — informações sobre a evolução da inadimplência entre as famílias brasileiras.
- FGV Ibre — análise sobre endividamento, crédito e percepção econômica.
- Banco Central — informações sobre riscos associados ao crédito às famílias.
Nota editorial: os dados apresentados nesta reportagem têm como referência a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, referente a agosto de 2026. Endividamento e inadimplência são indicadores diferentes e não devem ser interpretados como sinônimos.
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