Ex-diretora do IDP vendeu precatórios de R$ 451 milhões que Vorcaro tentou usar para quitar dívida tributária
Papéis pertenciam ao escritório de Dalide Corrêa, ex-diretora do instituto fundado por Gilmar Mendes e Paulo Gonet; anos depois, Daniel Vorcaro comprou os créditos e tentou usá-los para pagar mais de R$ 210 milhões ao Fisco
Publicado em 22 de setembro de 2026
Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, os precatórios estavam relacionados a uma ação movida pela empresa Una Agroindustrial contra a União, envolvendo indenizações por prejuízos atribuídos ao congelamento dos preços do açúcar e do álcool entre 1985 e 1992.
O escritório de Dalide Corrêa atuou no processo e tinha direito a 30% do resultado obtido. Essa parcela correspondeu a precatórios que somavam R$ 451,3 milhões.
O que chama atenção é o que aconteceu depois: os papéis foram vendidos pelo escritório e, posteriormente, adquiridos por Daniel Vorcaro. Em março de 2024, o ex-controlador do Banco Master tentou utilizar esses créditos para quitar uma dívida de mais de R$ 210 milhões com o Fisco.
Como os R$ 451,3 milhões chegaram a Vorcaro
Os precatórios tiveram origem em uma disputa judicial envolvendo a Una Agroindustrial e a União.
A empresa buscava indenização pelos prejuízos decorrentes do congelamento dos preços do açúcar e do álcool determinado pelo governo federal entre 1985 e 1992.
Após a vitória judicial, o escritório de Dalide Corrêa ficou com 30% do valor relacionado ao resultado da ação. A parcela foi materializada em precatórios que totalizavam R$ 451,3 milhões.
Entretanto, a situação jurídica desses créditos mudou posteriormente.
• 2022: decisão judicial suspende o pagamento dos precatórios;
• 2022: o escritório de Dalide Corrêa vende os papéis para o fundo SSA FIDC, ligado à estrutura da Reag;
• 30 de março de 2024: Daniel Vorcaro compra os precatórios do fundo;
• três dias depois: Vorcaro ingressa na Justiça para tentar obrigar a Receita Federal a aceitar os créditos para quitar uma dívida tributária superior a R$ 210 milhões.
Os precatórios perderam valor jurídico
A operação se tornou ainda mais complexa porque os precatórios haviam perdido valor comercial após decisões judiciais que suspenderam e posteriormente cancelaram os créditos relacionados à ação.
Segundo o Metrópoles, uma decisão da 6ª Vara Federal Cível do Distrito Federal determinou o cancelamento dos precatórios e a devolução ao Tesouro Nacional de aproximadamente R$ 1,531 bilhão depositados judicialmente.
Mesmo diante desse cenário, Vorcaro adquiriu os papéis e tentou utilizá-los como forma de pagamento de sua dívida tributária.
A Receita considerou que os créditos não atendiam aos requisitos necessários para serem utilizados na quitação da dívida, entre eles a existência de um crédito líquido e certo reconhecido por decisão judicial definitiva.
Vorcaro tentou usar os papéis para pagar o Fisco
Apenas três dias depois de comprar os precatórios, Daniel Vorcaro entrou na Justiça para tentar obrigar a Receita Federal a aceitar os papéis como pagamento de uma dívida de mais de R$ 210 milhões em Imposto de Renda Pessoa Física.
A Receita rejeitou a tentativa.
O argumento apresentado pelo Fisco foi que os créditos não possuíam as características necessárias para serem utilizados como moeda de pagamento da dívida tributária.
A disputa judicial sobre a tentativa de utilização dos precatórios ainda não havia sido julgada, segundo a reportagem do Metrópoles.
Quem é Dalide Corrêa
Dalide Corrêa ocupou por anos o cargo de diretora-geral do IDP, instituto criado em 1998 por Gilmar Mendes, Paulo Gonet e Inocêncio Mártires Coelho.
Documentos históricos do próprio IDP registram Dalide Corrêa como diretora-geral da instituição. Os mesmos documentos identificam Gilmar Mendes e Paulo Gonet como fundadores.
Gonet permaneceu como sócio do instituto até 2017, quando vendeu sua participação para Francisco Schertel Mendes, filho de Gilmar Mendes.
A ligação histórica entre os personagens não prova qualquer irregularidade na operação dos precatórios. Mas é um dado relevante para entender por que os novos documentos passaram a provocar questionamentos políticos e institucionais.
Os R$ 33 milhões pagos pelo Banco Master
A operação com precatórios ganhou ainda mais repercussão depois que documentos de auditoria relacionados ao Banco Master apontaram pagamentos de aproximadamente R$ 33 milhões ao escritório de Dalide Corrêa em 2024.
Mensagens atribuídas a executivos do banco também mencionaram Dalide como um suposto “canal direto com o STF”.
O gabinete de Gilmar Mendes negou qualquer sociedade entre o ministro e a advogada e afirmou que a associação feita por executivos do Banco Master é falsa. Também sustentou que Gilmar votou contra interesses do setor sucroalcooleiro nos processos que julgou.
O escritório de Dalide também negou que ela tenha sido sócia de Gilmar Mendes e afirmou que sua atuação em processos relacionados aos créditos ocorreu em instâncias inferiores.
Quem comprou, quem vendeu, quanto foi pago, qual era o valor real dos créditos no momento das operações e por que precatórios questionados judicialmente foram utilizados em uma tentativa de quitação tributária?
São perguntas documentais. E documentos são a melhor forma de separar uma operação legítima de uma eventual irregularidade.
O mercado de precatórios virou peça central no caso Master
Os precatórios aparecem repetidamente nas investigações que envolvem o Banco Master.
Segundo informações divulgadas no âmbito das apurações, o ecossistema empresarial ligado a Vorcaro negociou diferentes créditos judiciais e utilizou esses ativos em operações financeiras complexas.
No episódio dos R$ 451,3 milhões, a questão que chama atenção é a diferença entre o valor nominal dos papéis e sua situação jurídica no momento em que foram negociados.
Um precatório pode ter valor de face elevado e, ainda assim, apresentar enorme deságio ou problemas jurídicos que comprometam sua liquidez.
Análise editorial — Te Politizei
O caso dos R$ 451,3 milhões expõe uma questão que merece ser discutida sem medo de tocar nas estruturas de poder: por que operações envolvendo cifras tão elevadas conseguem circular durante anos sem que as instituições públicas ofereçam respostas claras à sociedade?
Não se trata de condenar Dalide Corrêa, Gilmar Mendes, Paulo Gonet ou Daniel Vorcaro pela simples existência dessas relações comerciais ou profissionais.
O problema é outro: quando milhões de reais em créditos judiciais passam por escritórios ligados a pessoas que mantiveram relações profissionais com integrantes do alto escalão do Judiciário e, posteriormente, chegam a um banqueiro investigado, a sociedade tem o direito de exigir transparência total.
O Brasil já está acostumado a descobrir relações financeiras somente depois que uma investigação policial apreende celulares, contratos e documentos.
Isso precisa mudar.
Quanto maior o poder e quanto maior o valor envolvido, maior deve ser o nível de transparência.
E existe uma pergunta que não pode ser ignorada: se a Receita Federal considerou os créditos inadequados para quitar uma dívida de mais de R$ 210 milhões, por que esses mesmos papéis chegaram a ser negociados pelo valor de face?
A resposta precisa estar nos documentos.
O cidadão comum não tem acesso privilegiado a ministros, tribunais, bancos ou grandes escritórios.
Quando grandes grupos econômicos e autoridades circulam no mesmo ambiente, a regra deve ser simples: tudo precisa poder ser explicado.
Não existe democracia saudável quando contratos milionários ficam cercados por zonas de sombra.
O dinheiro pode ser privado. A transparência, quando há interesse público, não deveria ser.
A pergunta que fica
O caso ainda precisa avançar nas instâncias competentes.
Não há, até o momento, decisão judicial que reconheça crime na operação envolvendo os precatórios de R$ 451,3 milhões.
Mas há fatos suficientes para justificar uma investigação aprofundada: valores milionários, créditos com situação jurídica contestada, uma tentativa de utilização para quitar dívida tributária e uma rede de relações profissionais que alcança personagens importantes do sistema de Justiça.
O que a sociedade precisa agora não é de versões. É de documentos, contratos, pagamentos e decisões judiciais.
Se tudo foi legal, que as provas demonstrem.
Se houve irregularidade, que os responsáveis respondam.
Nota editorial
Esta reportagem diferencia fatos documentados, informações divulgadas por veículos de imprensa e alegações das partes.
O Te Politizei não afirma que Dalide Corrêa, Gilmar Mendes, Paulo Gonet ou Daniel Vorcaro tenham cometido crime. A reportagem apresenta fatos relacionados à circulação dos precatórios e aos questionamentos existentes sobre a operação. Eventuais irregularidades dependem de investigação e decisão das autoridades competentes.
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Fontes
- Metrópoles — reportagem de Demétrio Vecchioli sobre os R$ 451,3 milhões em precatórios.
- Documentos históricos do IDP — registros de Gilmar Mendes e Paulo Gonet como fundadores e Dalide Corrêa como diretora-geral.
- Folha de S.Paulo — informações sobre a relação histórica entre Gilmar Mendes e Paulo Gonet no IDP.
- Folha de S.Paulo/O Globo — informações sobre pagamentos do Banco Master ao escritório de Dalide Corrêa e as manifestações dos envolvidos.
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