R$ 3 milhões por mês: Vorcaro faz acusação explosiva contra grupo ligado a Jaques Wagner e Rui Costa
Em proposta de delação rejeitada pela PF e pela PGR, ex-banqueiro afirma que grupo político na Bahia recebia valores mensais ligados ao Credcesta; acusação não foi corroborada e é negada pelos citados
Jornalista — Registro Profissional 0102501/SP
Uma nova frente do caso Banco Master coloca o senador Jaques Wagner (PT-BA) no centro de uma acusação feita pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo uma proposta de colaboração premiada obtida pelo UOL, Vorcaro afirmou que um grupo político ligado a Wagner e ao ex-governador da Bahia Rui Costa receberia aproximadamente R$ 3 milhões por mês em supostas vantagens indevidas relacionadas à operação do Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos baianos.
A acusação, porém, tem uma ressalva fundamental: a proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de elementos suficientes de corroboração. Vorcaro também afirmou que não teria presenciado o suposto acordo. Segundo seu relato, teria tomado conhecimento dele por meio de seu ex-sócio Augusto Lima, que nega a acusação.
R$ 2 milhões seriam pagos por meio de contrato entre o Banco Master e a PKL One.
R$ 1 milhão seria entregue em espécie, segundo o relato atribuído a Vorcaro.
A acusação envolve o Credcesta
O centro da narrativa apresentada por Vorcaro é a estrutura empresarial responsável pela exploração do Credcesta.
Segundo a proposta de colaboração, o Master teria firmado em 2018 uma parceria com a PKL One, empresa que explorava o cartão de crédito consignado. O banco teria pago R$ 30 milhões pela participação na operação e combinado a divisão dos lucros.
O relato afirma que aproximadamente R$ 2 milhões por mês eram pagos pelo Master à PKL One ou a prestadores indicados pela empresa. Vorcaro sustenta que parte desses recursos teria sido desviada para pagamentos indevidos por meio de contratos fictícios e dinheiro em espécie.
O contrato de R$ 2 milhões existe — mas não prova propina sozinho
Esse é um dos pontos que exigem maior cuidado na análise.
O UOL teve acesso a um contrato entre a PKL One e o Banco Master que previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 2 milhões para despesas operacionais.
O documento confirma a existência da previsão financeira. Entretanto, não identifica Jaques Wagner ou outro político como beneficiário e não demonstra, por si só, que os valores tenham sido utilizados para pagamento de propina.
O contrato de aproximadamente R$ 2 milhões mensais é um documento empresarial. A afirmação de que esse dinheiro teria servido para pagamentos ilícitos é uma alegação apresentada por Vorcaro.
Até o momento, as fontes consultadas não apresentam o contrato, isoladamente, como prova de que Wagner tenha recebido esses valores.
Quem seria o operador citado por Vorcaro?
Na proposta de colaboração, Vorcaro aponta o empresário Guilherme Henrique Sodré Martins, conhecido como Guiga, como suposto operador ligado ao grupo de Wagner.
Documentos citados pelo UOL mostram que Sodré possuía 22,45% de um fundo que tinha participação indireta na PKL One até dezembro de 2018.
A partir de 2019, essa participação aparece em um fundo da Entre Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado em investigações como operador financeiro ligado a Vorcaro.
Há, entretanto, uma distinção essencial: os documentos confirmam a presença de Sodré na estrutura societária, mas não demonstram que ele mantivesse essa participação em nome de Jaques Wagner.
A parcela de R$ 1 milhão em dinheiro vivo
A acusação mais grave apresentada na proposta envolve uma segunda modalidade de pagamento.
Vorcaro afirma que, depois da saída de Guilherme Sodré da estrutura societária indireta da PKL, teria sido estabelecido um pagamento de R$ 1 milhão por mês em espécie.
Segundo o relato, os pagamentos teriam continuado até a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025.
O ex-banqueiro descreveu mecanismos que, segundo ele, seriam utilizados para obter dinheiro em espécie, incluindo contratos com correspondentes bancários e operações envolvendo empresas ligadas ao grupo.
O relato também afirma que os valores eram entregues ao motorista de Vorcaro, que posteriormente os repassaria ao próprio colaborador ou a Augusto Lima. O documento, entretanto, não descreve como o dinheiro teria chegado diretamente a Wagner ou a integrantes de seu grupo.
E Rui Costa?
O ex-governador da Bahia e atual ministro da Casa Civil, Rui Costa, aparece citado cinco vezes no capítulo da proposta de delação.
O documento relaciona o nome de Costa ao chamado “grupo de Jaques Wagner e Rui Costa”, mas não detalha diretamente uma parcela de dinheiro ou um contrato destinado ao ex-governador.
O relato destaca, porém, que Costa assinou dois decretos 16 dias depois do leilão da Ebal, quando era governador da Bahia. Segundo a investigação descrita pelo UOL, os decretos ampliaram as possibilidades de exploração do Credcesta e alteraram seu enquadramento no regime de consignações.
O documento não estabelece, contudo, que os decretos tenham sido assinados como contrapartida de pagamento a Costa.
A venda da Ebal e a origem do negócio
A investigação também remonta à venda da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal que detinha a operação relacionada ao Credcesta.
Segundo o relato apresentado por Vorcaro, a empresa NGV Empreendimentos venceu o leilão por R$ 15 milhões. O ex-banqueiro afirmou que Augusto Lima seria o proprietário de fato da empresa, embora formalmente ela estivesse em nome de um investidor espanhol.
Posteriormente, os direitos de exploração do Credcesta foram transferidos para a PKL One.
A proposta de delação afirma que a participação societária da PKL teria sido estruturada por meio de fundos de investimento e que entre os supostos beneficiários finais estariam pessoas ligadas a Augusto Lima, Guilherme Sodré e outros grupos políticos.
O que a PF e a PGR fizeram com a delação?
A proposta apresentada por Vorcaro não avançou.
De acordo com o UOL, a Polícia Federal deixou as negociações em duas ocasiões. Depois, a PGR rejeitou o acordo por considerar que os relatos não estavam acompanhados de elementos suficientes para corroborá-los.
Isso significa que as informações divulgadas agora devem ser tratadas como alegações contidas em uma proposta de colaboração que não foi celebrada, e não como fatos comprovados judicialmente.
As negativas de Wagner, Augusto Lima e Vorcaro
A defesa de Jaques Wagner classificou as declarações como falsas e oportunistas. O senador afirma não ter conhecimento sobre contratos fictícios da PKL e nega qualquer vínculo com a empresa.
A defesa também afirma que Wagner nunca teve vínculo com Vorcaro e que não atuou em favor das pautas do Banco Master no Congresso.
Augusto Lima também negou as acusações. Sua defesa classificou o conteúdo como falso e afirmou que os serviços previstos no contrato entre PKL e Master foram efetivamente prestados.
Já a defesa de Vorcaro afirmou que não reconhece a autenticidade e a integridade do material divulgado e repudiou a publicação dos anexos de uma colaboração que não foi celebrada.
- Comprovado documentalmente: existência do contrato entre Master e PKL com previsão de pagamentos mensais de aproximadamente R$ 2 milhões.
- Relatado por Vorcaro: que parte desses recursos seria destinada a vantagens indevidas.
- Relatado por Vorcaro: existência de pagamentos mensais de R$ 1 milhão em espécie.
- Não demonstrado no documento: que Wagner tenha recebido diretamente os valores.
- Não demonstrado: que Rui Costa tenha recebido os valores ou que os decretos tenham sido contrapartida de propina.
- Situação da delação: proposta rejeitada pela PF e pela PGR.
O caso não começou agora
A nova revelação se soma a outras informações já divulgadas no âmbito da Operação Compliance Zero.
Em junho, Wagner foi alvo de busca e apreensão. A PF investiga suspeitas de que ele teria recebido vantagens relacionadas ao grupo Master, incluindo um apartamento em Salvador avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões, viagens em aeronaves ligadas ao grupo e ingressos para shows.
O senador nega ter recebido vantagens indevidas e afirmou anteriormente que sua relação com Daniel Vorcaro era “praticamente zero”.
Editorial — Te Politizei
O caso Master deixou de ser apenas uma investigação sobre operações financeiras.
As novas informações colocam no centro do debate a relação entre grandes interesses econômicos, empresas que operam crédito consignado e grupos políticos que ocupam posições estratégicas no Estado.
Uma acusação de R$ 3 milhões mensais é grave demais para ser tratada como simples disputa política. Também não pode ser transformada automaticamente em prova de corrupção sem documentos, rastreamento financeiro e confirmação pelos investigadores.
É justamente por isso que a transparência precisa prevalecer.
Se os pagamentos existiram, é preciso identificar quem recebeu, quanto recebeu, por qual mecanismo e qual seria a contrapartida. Se não existiram, os documentos e as investigações também precisam demonstrar isso de maneira objetiva.
O eleitor tem direito a conhecer os fatos antes de formar sua própria opinião. E autoridades públicas precisam estar submetidas ao mesmo padrão de transparência, independentemente de partido ou posição ideológica.
O que não pode acontecer é uma investigação dessa dimensão ser transformada em disputa seletiva entre grupos políticos. O caso Master envolve nomes de diferentes campos e exige que as mesmas perguntas sejam feitas a todos.
A pergunta que permanece
A proposta de delação apresentada por Daniel Vorcaro traz uma narrativa detalhada sobre a origem dos supostos pagamentos, empresas envolvidas e mecanismos que teriam sido utilizados.
Mas o próprio documento deixa lacunas relevantes: não identifica diretamente os beneficiários da parcela de R$ 2 milhões, não demonstra como o R$ 1 milhão em espécie teria chegado a Wagner e não apresenta, no trecho divulgado, a comprovação documental completa das acusações.
A PF e a PGR rejeitaram a colaboração por falta de elementos suficientes de corroboração. As defesas negam as acusações.
Agora, o desafio das investigações é transformar — ou não — essas alegações em fatos comprováveis.
Nota editorial
Esta reportagem foi elaborada a partir de informações publicadas pelo UOL e pelo Poder360 em 25 de setembro de 2026, além de registros anteriormente divulgados sobre a Operação Compliance Zero. As acusações atribuídas a Daniel Vorcaro são apresentadas como alegações constantes de uma proposta de colaboração premiada que foi rejeitada pela PF e pela PGR. O texto não apresenta tais alegações como fatos comprovados. As manifestações das defesas foram incluídas sempre que disponíveis.
Fontes consultadas: UOL, Poder360, CNN Brasil, Folha de S.Paulo e Agência Estado.
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