PF aponta possível interferência de Gonet na eleição de procuradores

Relatório baseado em mensagens apreendidas no caso Banco Master registra pedido para que candidato desistisse da disputa pelo comando do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais.

03 de setembro de 2026 · Política · Justiça · Banco Master
Paulo Gonet, procurador-geral da República. Foto: divulgação/STF.

Um relatório da Polícia Federal colocou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, no centro de uma nova controvérsia envolvendo a disputa pelo comando do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG). Mensagens recuperadas durante a investigação do Banco Master indicam que Gonet teria sido procurado para atuar nos bastidores da eleição de 2024.

Segundo o material analisado pela PF, o advogado Ciro Soares teria pedido a Gonet que um candidato abandonasse a disputa para favorecer Jarbas Soares Júnior.

O episódio chama atenção porque a eleição envolvia a representação dos procuradores-gerais dos Ministérios Públicos estaduais e de outras instituições do sistema de Justiça.

O que a PF encontrou

Mensagens atribuídas a pessoas próximas a Daniel Vorcaro foram analisadas pela Polícia Federal.

Paulo Gonet aparece citado nas conversas.

Ciro Soares teria procurado Gonet antes da eleição do CNPG.

O pedido seria para que um candidato desistisse da disputa.

Jarbas Soares Júnior acabou assumindo a presidência do conselho em 2024.

Como Gonet aparece no relatório da PF

A Polícia Federal chegou às referências a Gonet durante a análise do material extraído do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

O relatório descreve uma rede de contatos que envolvia empresários, advogados e integrantes de instituições públicas.

Em uma das conversas, Ciro Soares aparece como intermediário entre Vorcaro e Gonet. O advogado teria relatado ao banqueiro que havia procurado o procurador-geral para tratar da disputa pelo CNPG.

A PF registrou que o pedido envolvia a retirada de um candidato da eleição para favorecer Jarbas Soares Júnior.

Jarbas foi eleito presidente do CNPG em maio de 2024.

Relatório da Polícia Federal reúne referências a contatos de Daniel Vorcaro com autoridades e intermediários. Foto: reprodução/documento público.

A eleição que entrou no radar da investigação

O Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais reúne chefes dos Ministérios Públicos estaduais e de outros ramos do Ministério Público.

A presidência da entidade tem peso institucional. O cargo permite ao ocupante representar os procuradores-gerais em discussões nacionais relacionadas ao funcionamento do Ministério Público.

É nesse contexto que a suposta interferência ganha relevância dentro do relatório da PF.

A investigação não afirma, por si só, que a eleição tenha sido ilegal. O que o documento registra é uma possível atuação nos bastidores para influenciar o resultado da disputa.

O elo com Daniel Vorcaro

A referência à eleição dos procuradores aparece dentro de uma investigação muito maior: a apuração sobre o Banco Master e as relações mantidas por Daniel Vorcaro com integrantes de diferentes áreas do poder público.

A análise do celular do banqueiro revelou mensagens que levaram os investigadores a identificar contatos envolvendo o procurador-geral da República, integrantes da Polícia Federal e o ministro Alexandre de Moraes.

No caso de Moraes, a PF identificou mensagens enviadas por Vorcaro a um contato salvo em nome do ministro. Parte das respostas não pôde ser recuperada, segundo o relatório, porque as mensagens eram enviadas por mecanismos que dificultavam o armazenamento do conteúdo.

O material também registra referências a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, aparece no centro das investigações que deram origem ao relatório da PF. Foto: divulgação/reprodução.

Gonet questiona a própria investigação

A divulgação do relatório criou uma situação incomum para o procurador-geral da República.

Gonet é citado no material produzido pela Polícia Federal e, ao mesmo tempo, passou a questionar a validade da investigação que revelou as mensagens.

Em manifestação enviada ao Supremo Tribunal Federal em 1º de setembro, Gonet pediu a nulidade da apuração relacionada às conversas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes.

O procurador-geral sustentou que André Mendonça não poderia ter determinado diretamente à Polícia Federal uma investigação específica envolvendo outro ministro do Supremo sem que o procedimento passasse previamente pelo plenário da Corte.

O ponto de conflito

A discussão passou a envolver não apenas o conteúdo das mensagens, mas também a legalidade da forma como a investigação foi conduzida e quem poderia determinar novas diligências envolvendo integrantes do próprio Supremo.

Por que o caso é politicamente sensível

O episódio reúne três instituições centrais da República: Supremo Tribunal Federal, Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal.

A situação se torna ainda mais delicada porque as referências a Gonet aparecem em uma investigação que também examina a relação de Vorcaro com outras autoridades.

O relatório da PF, porém, não deve ser confundido com uma sentença ou uma conclusão definitiva sobre a existência de crimes.

A possível interferência na eleição dos procuradores precisa ser analisada a partir das mensagens, dos demais documentos reunidos pela investigação e das explicações dos envolvidos.

O que está comprovado e o que ainda precisa ser apurado

Documentado: o relatório da PF registra referências a Paulo Gonet e descreve uma suposta articulação relacionada à eleição do CNPG.

Ainda em apuração: se houve efetiva interferência de Gonet e qual foi o resultado concreto de eventual atuação.

Não demonstrado apenas pelas mensagens: a prática de crime ou qualquer irregularidade definitiva por parte do procurador-geral.

O que acontece agora

O caso deverá continuar no Supremo Tribunal Federal, onde serão analisados os questionamentos apresentados pela Procuradoria-Geral da República e os elementos reunidos pela Polícia Federal.

A retirada do sigilo aumentou a pressão sobre as instituições envolvidas. As próximas decisões deverão esclarecer quais partes do relatório poderão ser utilizadas e se haverá aprofundamento das apurações.

Também permanece no centro do debate a relação entre as autoridades citadas e Daniel Vorcaro, além da eventual influência exercida pelo banqueiro sobre integrantes do sistema de Justiça.

Nota editorial: esta reportagem utiliza expressões como “segundo a PF”, “aponta” e “possível” porque as informações descritas fazem parte de uma investigação. A citação de uma autoridade em mensagens ou documentos não constitui, isoladamente, prova de crime ou irregularidade.

Fontes consultadas

A reportagem foi elaborada com base nas informações divulgadas sobre o relatório da Polícia Federal, na manifestação da Procuradoria-Geral da República e na cobertura dos desdobramentos do caso Banco Master.

Fontes: Polícia Federal; Supremo Tribunal Federal; Procuradoria-Geral da República; Agência Brasil; imprensa nacional.

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